quinta-feira, 13 de agosto de 2015

As motivações dos trabalhadores expatriados




Nas últimas décadas tem-se assistido a uma crescente abertura das economias, em consequência da atenuação de políticas protecionistas e da adoção de políticas direcionadas para as exportações e para a captação de investimento estrangeiro. Esta maior abertura das economias e a progressiva facilidade de deslocação possibilitou às empresas a implementação de subsidiárias/filiais em diferentes países estrangeiros, permitindo, às empresas, beneficiar de incentivos fiscais, de mão-de-obra mais barata e de recursos naturais que não teriam acesso, ou pelo menos não de forma tão abundante, no país de origem. 

A abertura de subsidiárias ou filiais em países terceiros torna iminente a necessidade de enviar funcionários da empresa-mãe para a nova subsidiária, por forma a conduzirem o processo de adoção ou adaptação da missão, visão, valores e filosofias da empresa mãe na subsidiária. No entanto, nem todos os trabalhadores estão dispostos a deixar o seu país para embarcar nestas missões internacionais, principalmente se as subsidiárias se localizarem em países menos desenvolvidos onde a estabilidade será menor e os riscos maiores. 

Os trabalhadores que deixam o seu país de origem, durante um determinado período de tempo (em média de 1 a 2 anos), para embarcarem nestas missões internacionais são designados por expatriados. Note-se que o conceito de expatriação não se deve confundir com o conceito de emigração, o qual “designa alguém que, autonomamente, migrou para outro país, no qual residiu durante um período mínimo de doze meses”. 

Uma vez que o conceito de expatriação, ou mais concretamente a sua clara distinção de emigração, é relativamente recente, a sua definição não é ainda totalmente consensual na literatura, pelo que não existe uma definição universal. No entanto, há um aspecto comum a todas as definições: “a expatriação diz respeito à mobilização de trabalhadores dentro da mesma empresa, seja entre países desenvolvidos, ou de países desenvolvidos para países em desenvolvimento.” Um dos pontos que não é cabalmente definido na literatura prende-se com o tipo de trabalhadores que se incluem neste conceito: alguns autores limitam-nos a quadros superiores enquanto outros autores não especificam. 

Posto isto, pretendemos analisar quais as motivações que levam alguns trabalhadores a deixarem o seu país de origem para embaraçar nestas missões internacionais, mais concretamente o que leva os quadros superiores a trocarem a estabilidade de um país desenvolvido (país de empresa-mãe) por uma missão internacional num país em vias de desenvolvimento. Note-se que, atualmente proliferam os investimentos em economias emergentes como a Índia, a China, Angola ou o Brasil, o que eleva a importância concreta de uma análise das motivações inerentes à mobilidade de um país desenvolvido para um país em vias de desenvolvimento. 

Existem dois tipos de motivações: 

  1. Motivação intrínseca – diz respeito a fatores internos ao indivíduo, os quais têm inerentes a sua forma de ser, os seus interesses e os seus gostos, não tem necessariamente de existir recompensas, uma vez que a tarefa em si representa um interesse para o individuo;

  1.  Motivação extrínseca – diz respeito a fatores externos ao indivíduo, como é o caso de uma recompensa monetária.
Ambas contribuem, com pesos diferentes, em diferentes pessoas, para a motivação final de um determinado individuo. A figura infra sintetiza as motivações intrínsecas e extrínsecas inerentes à aceitação de uma missão internacional. 

 

Claro está, que o leva à aceitação de uma missão internacional por norma não se subsume exclusivamente a motivações intrínsecas ou extrínsecas, mas antes a um conjunto de fatores pertencentes a ambos os tipos de motivações. Consequentemente, não raras vezes, poderá acontecer, as motivações individuais não corresponderem aos interesses da organização, nomeadamente ao nível das tarefas internacionais a desempenhar pelo trabalhador. Neste caso, a aceitação da missão internacional estará dependente de fatores push ou fatores pull.  

Os fatores pull referem-se aos benefícios decorrentes da participação numa missão internacional, como é o caso do desenvolvimento de novas competências em ambiente multicultural. Os fatores push correspondem aos fatores que coagem o indivíduo a alterar o seu ambiente organizacional. Um exemplo destes fatores push é a ausência de uma posição adequada para o trabalhador na empresa-mãe ou na empresa do país da empresa detentora da subsidiária (país de origem).

Richardson e McKenna (2002) classificam os expatriados, segundo as suas principais motivações em: 
  • Explorador: a principal motivação reside na vontade de alterar o seu local de trabalho, imbuído pelo desejo de conhecer novas culturas; 
  • Refugiado: considera a expatriação com uma oportunidade de sair do ambiente de trabalho em que se encontra inserido, porque, por exemplo, enfrenta uma situação adversa; 
  • Mercenário: considera a compensação monetária o principal motivador;
  • Arquiteto: vê a expatriação como o caminho necessário e desejável ao desenvolvimento e progressão na carreira profissional. 

Não obstante, uma vez mais, realça-se que estes motivos não são exclusivos, ou seja um expatriado não corresponderá exclusivamente a um dos tipos apresentados, antes pelo contrário apresentará, simultaneamente, mais do que uma característica dos vários tipos apresentados. 

Apesar de ser irrefutável que a aceitação ou não de uma missão internacional bem como a respetiva motivação para tal aceitação depende das características individuais de cada um, é interessante perceber-se em que medida o estado civil ou a existência de filhos condiciona as principais motivações à participação nestas missões. A Tabela infra expõe as principais motivações para a expatriação, por classe de estado civil e existência de filhos:  

 

Uma análise à tabela supra evidência que as principais motivações variam entre solteiros, casados e casados com filhos. Quanto aos fatores motivadores apresentados, verifica-se que, por exemplo, a remuneração é um fator determinante para todos eles. Por sua vez, outros fatores surgem como importantes apenas para algumas classes, como é o caso da família no caso dos indivíduos casados, ou seja a disponibilidade ou vontade por parte do cônjuge em acompanhar a deslocalização do parceiro na missão internacional, ou a repatriação no caso dos casados com filhos. Note-se que neste último caso, assume-se que a família acompanhará o expatriado na missão internacional, pelo que a possibilidade de regressar à casa-mãe e consequentemente ao país de origem é um importante fator motivacional. 

Por último, ainda relativamente à tabela apresenta, é importante esclarecer que apesar de a língua parecer estar a funcionar como motivação e não como barreira ao contrário do que se poderia pensar, tal fator tem sido alvo de algumas críticas, mais concretamente por não se tratar, necessariamente, de uma motivação mas sim, de um fator facilitador. 

Em suma, os expatriados são motivados por vários fatores, tanto intrínsecos como extrínsecos, verificando-se uma importância crescente para fatores intrínsecos e mais concretamente para a família. Ou seja é cada vez mais importante que a empresa ao propor uma missão internacional a um trabalhador, tenha em conta, por exemplo, no pacote de benefícios, ajudas para a deslocalização da família do trabalhador bem como a facilidade de adaptação, tanto do trabalhador como da respetiva família, ao novo país. Note-se que, à partida, será a família, e não o trabalhador, que terá um choque cultural maior, principalmente se partirmos do pressuposto que grande parte do tempo do trabalhador será passado na subsidiária, dispondo a família de mais tempo e necessidade de integração na cultura do novo país.  

Referências:
Baruch, Y. & Altman, Y. (2002), “Expatriation and Repatriation in MNCs: a Taxonomy”, Human Resource Management, Vol. 41, N.2, pp. 236-259;

Ferreira, André (2015), “Motivações dos expatriados qualificados que se deslocam de países desenvolvidos para países em desenvolvimento”, Universidade do Porto;

Richardson, J. & McKenna, S. (2002), “Leaving and experiencing: Why academics expatriate and how they experience expatriation”, Career Development International, Vol. 7, N. 2, pp. 67-78.



quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Ensino Superior: Uma escolha que pode ditar o futuro



No passado dia 20 de julho arrancou a 1.ª fase de candidaturas ao Ensino Superior para o próximo ano letivo, ano em que as universidades e politécnicos disponibilizam 50.555 vagas, conforme gráfico infra, distribuídas por 1.048 cursos, o que significa uma redução de 1% das vagas comparativamente a 2014, sendo a saúde, direito e economia as áreas com maior número de vagas. Apesar desta quebra, a redução de vagas do próximo ano letivo é menos drástica do que a registada em anos anteriores, já que em 2014 foram menos 641 lugares, em 2013 menos 837 e em 2012 menos 1202.
Todos os anos se repete o exercício, de alocar as vagas de acordo com as médias do ensino secundário. O número limitado de vagas serve, não apenas para diminuir a concorrência em certas profissões, mas para distribuir os candidatos por cursos que de outra maneira teriam pouca ou nenhuma procura.




A falta de procura levou ao encerramento de 16 cursos do ensino superior, entre 2008 e 2014, e o número de candidatos ao ensino superior desceu de 53.415 para 42.455, pelo que é compreensível a contração do número de vagas disponíveis verificada. No entanto, desde o ano letivo passado, a procura deixou de ser o único fator considerado para a determinação do número de vagas, passando este numero a estar dependente dos índices de empregabilidade dos cursos. Consequentemente, os cursos com níveis de desemprego superiores aos registados entre os licenciados em geral ou mais elevados do que o índice médio de empregabilidade dos alunos das instituições em que o curso se inserem deixam de poder aumentar o número de vagas.

Conforme dados divulgados pela Direção - Geral de Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC) e se pode observar na figura supra, em dezembro de 2014 8,6% das 146.577 pessoas que se diplomaram no ensino superior público entre 2009/2010 e 2012/2013 estavam registadas nos centros de emprego. Já no ensino superior privado a percentagem sobe para os 12,7%, num universo de 48.342 licenciados. Como tal não é surpreendente que seja o ensino superior privado a liderar a tabela dos cursos com maior desemprego, cujas taxas variam entre ao 37,4% e os 68,9%.
Por seu turno, os cursos com taxa de desemprego situados no liminar zero são os já esperados de Medicina, mas também Teologia, da Universidade Católica, Línguas e Culturas Orientais, da Universidade do Minho, ou Música - Variante de Jazz do Instituto Politécnico do Porto.
Estes dados são meramente indicativos não devendo ser tomados como um indicador perfeito, uma vez que nem todos os desempregados estão inscritos nos centros de emprego, já que, por um lado são poucas as oportunidades disponibilizadas pelo IEFP e por lado as exigências impostas aos inscritos nos centro de emprego são algumas, de que é exemplo o caráter mandatário de comparência a formações. Acresce ainda, a existência de jovens que mesmo estando a empregados estão inseridos numa área distinta da sua formação superior.
Independentemente do cenário menos positivo traçado da presente análise, é importante não menosprezar as mais-valias de se possuir uma habilitação superior quando se pretende ingressar no mercado de trabalho e progredir profissionalmente, uma vez que uma das missões do ensino superior é ensinar a pensar, a resolver problemas e proporcionar autonomia intelectual, contribuindo assim, através de ferramentas intelectuais, para a preparação para a vida ativa.
Dados recentes do Instituto Nacional de Estatística (INE), como mostra o gráfico abaixo, denotam que desde 2009 as habilitações ao nível do ensino apresentam uma taxa de desemprego inferior comparativamente a níveis de escolaridade inferiores.



A 1.ª fase de candidaturas ao ensino superior termina esta sexta-feira (7 de agosto) e os resultados serão divulgados a 7 de setembro, no portal da Direção - Geral do Ensino Superior (DGES). Apesar de crescente informação sobre os cursos, muitas continuam a ser as dúvidas que os assombram os alunos que chegam ao final do 12.º ano sem saber que curso escolher. O portal Inforcursos possibilita conhecer os vários estabelecimentos de ensino e a sua oferta, mostrando quais os cursos com maior ou menor emprego, com mais desistências, médias de acesso, vagas e até a distribuição dos alunos por género. A DGES lançou também este ano uma app que permite consultar guias de candidaturas, calendários e prazos de publicação de resultados e de início de novas fases, notícias relativas à candidatura ao Ensino Superior e contactos úteis.
A transição para o ensino superior e o afunilar de um caminho profissional futuro decorrente da escolha da área de formação, despoletam no jovem estudante um vasto conjunto de inquietações. De seguida apresentam-se os ponderadores mais comummente utilizados aquando da escolha do curso, contudo a ordenação poderá ser diferente, já que cada estudante terá a sua própria ordem de prioridades.
1)    Empregabilidade e saídas profissionais;
2)    Notas do secundário;
3)    Especialização dos cursos;
4)    Vocação e aptidões cognitivas para a área/curso;
5)    Reputação da escola e/ou curso;
6)    Localização;
7)    Custos a incorrer (propinas, alojamento, transportes, etc.);
8)    Cultura da academia;
9)    Qualidade do corpo docente.
Não obstante, as autoridades legítimas não parecem ter hesitações e destacam a taxa de emprego dos diplomados como o critério crucial. Desta forma, acreditam que o melhor curso é aquele que dá ao jovem emprego, sem que venha a ter necessidade de após o curso depender dos pais. Embora este pareça um critério sensato, não pode ser o único a ser considerado, já que o mercado de trabalho, não sendo estático, pode mudar antes mesmo de se concluir o curso. Assim, a opção por um curso para o qual não se tenha vocação aumentará a probabilidade de desmotivação e de não se ser muito bom naquilo que faz e portanto, aumenta também a probabilidade de vir a fazer parte dos números do desemprego. Posto isto, a vocação deverá ser, sem dúvida, um dos principais, senão o principal, ponderador a considerar.
Embora o ingresso no ensino superior seja a ambição de todos os que concorrem, muitos são também os que o abandonam sem completarem o (até então) tão desejado curso. No ano passado, cerca de 5 mil alunos abandonaram o Ensino Superior Público, no seu 2.º ano de inscrição, acreditando-se que a principal causa deste abandono estará ligada com a falta de condições financeiras.
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