sexta-feira, 20 de março de 2015

Portugal e as Agências de Rating: final feliz à vista?


Até 2011, em Portugal, pouco se ouvira falar de rating da divida pública e, portanto, muito poucos eram os que se preocupavam com as repercussões das análises realizadas pelas agências de rating. A descida do rating soberano pela Moddy’s, em julho do referido ano, à qual se seguiu a Fitch e a Standard & Poor’s, foi o ponto de viragem, desencadeando a atenção da comunicação social e tornando-se num dos assuntos mais comentados. A pouca importância dada às agências e aos ratings que emitem justifica-se, em parte, pela sua influência não ser considerada como relevante ou até mesmo algum descrédito no trabalho desenvolvido pelas mesmas. Por esta altura, os títulos de dívida soberana portuguesa eram classificados como Junk Bonds, o mesmo seria dizer que foi desaconselhado o investimento, dada a elevada probabilidade de incumprimento. Esta classificação de “lixo” da divida soberana portuguesa levou a uma maior atenção para com o trabalho desenvolvido por estas agências. Pela primeira vez, Portugal sentiu o poder das agências de rating, uma vez que a descida do rating despoletou à subida das taxas de juros, obrigando a um reforço dos colaterais nas dívidas contraídas externamente. A banca portuguesa, que à data encontrava-se numa situação relativamente estabilizada após a minimização do problema gerado pela crise de 2007, voltou a ver reduzida a sua liquidez junto dos mercados externos. Depressa o país e as empresas portuguesas, tal como todo o povo português compreendeu, da pior forma, o poder destas agências.

A Standard & Poor’s elevou hoje, 20 de Março, a perspectiva ("outlook") do "rating" de Portugal de "estável" para "positiva", o que mantém Portugal no rating "BB", ou seja, no segundo nível de "lixo". Contudo a agência admite que durante os próximos 12 meses poderá melhorar o "rating", caso se "confirmem as perspectivas de crescimento do PIB, em conjunto com uma redução do défice e desalavancagem do sector privado". A Standard & Poor’s projecta um crescimento do PIB em cerca de 1,8% durante 2015 e 2016,  que o défice orçamental deverá descer 2,9% este ano e  que a dívida pública  deverá recuar para 118% em 2014 e 113% em 2018.
Este aumento da perspectiva do rating da dívida soberana deve-se, conforme já avançado pela agência, às reformas implementadas nos anos mais recentes e ao sucesso do programa de expansão monetária do BCE.
Contudo esta revisão em alta está ensombrada pela situação vivida na Grécia, já que se teme que os potencias efeitos negativos decorrentes da situação grega se alastrem a outros países periféricos, como Portugal.

Esta revisão em alta da Standard & Poor’s poderá ser um bom presságio para a revisão que será feita, a 27 de Março, pela Fitch.

sexta-feira, 13 de março de 2015

Privatizações como forma de incrementar a eficiência: ilusão ou realidade?



A privatização de empresas públicas tem sido um dos assuntos mais debatidos nos últimos tempos, ocupando um lugar cimeiro na agenda política, com especial destaque para o período pós crise de 2008, consequência do programa de ajustamento financeiro e das pressões às privatizações por parte dos parceiros europeus.

Na realidade, apesar da grande ênfase que se tem dado, mais recentemente, a este tema, a privatização de empresas públicas não é tema recente, aliás remonta já ao período pós 25 de abril. De acordo com dados da OCDE, disponibilizados em 2002, entre 1990 e 2001 o processo de venda de empresas públicas rendeu ao Estado português 25,645 mil milhões de dólares, um valor ligeiramente superior ao obtido pelo Estado alemão no mesmo período.

Apesar dos vários motivos inerentes a este tipo de decisão, de entre os quais o alcance de objetivos políticos e económicos, o grande argumento utilizado para justificar um processo de privatização é sempre a melhoria da eficiência da empresa a privatizar. De facto, acredita-se que a performance de empresas públicas é inferior à performance de empresas privadas e acredita-se, também, que a venda de uma empresa pública a uma entidade privada potenciará uma melhoria da performance da empresa. Do ponto de vista teórico, existem 3 grandes teorias ou argumentos que justificam o menor desempenho das empresas públicas:  

  1.  Divisão de poderes entre a propriedade e o controlo. Esta forma de pensamento defende que os gestores de empresas privadas recebem mais incentivos para eliminarem os desperdícios e melhorarem a eficiência interna, enquanto que os proprietários das empresas públicas têm uma fraca capacidade de monitorizar o comportamento dos seus gestores. Assim, os gestores de empresas privadas são mais disciplinados pela pressão de vários mecanismos externos, como por exemplo o mercado
  2. Direitos de propriedade. Os teóricos que defendem esta corrente de pensamento argumentam que os gestores de empresas públicas não sofrem as consequências económicas das suas decisões, o que por sua vez reduz os incentivos para a diminuição dos desperdícios e aumento dos lucros. Enquanto os gestores de empresas privadas são pressionados pela ameaça de falência, os gestores de empresas públicas não estão tão expostos a esta ameaça, uma vez que a diferença entre lucros e gastos pode ser balanceada pelo Estado, não se verificando assim incentivos à redução de desperdícios, de que são exemplos o excesso de pessoal, os salários excessivamente elevados e os investimentos desproporcionais
  3. Escolha pública. De acordo com esta forma de pensamento, os políticos e oficiais do governo estarão mais preocupados em atingir os seus próprios objetivos, de que são exemplos os votos, o poder ou prestígio do que garantir a eficiência das empresas públicas.


Assim, torna-se essencial perceber quais os benefícios de uma política massiva de privatizações que deve ir além do encaixe financeiro do estado. Contudo este tema não é consensual, uma vez que em alguns países as privatizações têm-se mostrado de facto benéficas, na medida em que potenciaram a eficiência das empresas, mas noutros países não têm sido encontradas evidências de que as privatizações estejam a potenciar significativamente a eficiência.

Por exemplo, num estudo recentemente realizado para o caso espanhol, concluiu-se que não existem diferenças significativas entre a eficiência das empresas privatizadas e as restantes empresas do respetivo setor. Verificou-se, também que as empresas públicas espanholas antes da respetiva privatização não eram nem das mais eficientes nem das menos eficientes comparativamente com as restantes empresas do setor. Não obstante, concluiu-se, ainda que as empresas públicas após serem privatizadas aumentaram significativamente a sua eficiência, não se verificando contudo nenhuma alteração significativa nas restantes empresas do setor, no período pós-privatização. Quer isto dizer que as privatizações podem, de facto, influenciar a eficiência das empresas particularmente no caso das empresas públicas que já apresentam elevados níveis de eficiência, uma vez que é principalmente nesta categoria que se fazem sentir os melhoramentos ao nível da eficiência.

Apesar de, pelo nosso conhecimento, não existirem evidências quanto à efetiva melhoria de eficiência associada às privatizações portuguesas, mas considerando o estudo sobre o país vizinho e partindo do pressuposto que efetivamente as privatizações estão associadas a um incremento da eficiência, porque é que se verifica tanta resistência por parte da opinião pública e dos próprios trabalhadores às privatizações? Esta questão será respondia num próximo post. Mas podemos já adiantar que a grande resistência prende-se com as alterações laborais e de salários.


Bibliografia
Arocena, Pablo; Oliveros, Diana (2012) “The efficiency of stat-owned and privatized firms: does ownership make a difference?", International Journal of Production Economics

sexta-feira, 6 de março de 2015

Diplomacia económica: fomenta a internacionalização ou representa apenas um custo?



Antes de mais convém explicar o que é a diplomacia económica. Segundo o IAPMEI, a diplomacia económica tem como missão utilizar a influência diplomática e os recursos existentes ao nível do Ministério dos Negócios Estrangeiros e do Ministério da Economia, no sentido de criar e explorar oportunidades para as empresas e para a economia nacional, nomeadamente alavancando as exportações e a internacionalização das empresas e promovendo a marca do seu país. 

De entre os exemplos de diplomacia económica podemos referir vários organismos, como:

  • As embaixadas: as quais de forma lata têm como objetivo representar um país perante outro país; 
  • Os consolados: os quais de forma geral pretendem representar os particulares de um país noutro país;
  • Os centros de informação: os quais prestam informações e consultoria sobre os diversos mercados, de que é exemplo, em Portugal, a AICEP;
  • As missões comercias ou diplomáticas: que consistem numa viagem internacional, organizada pelo governo nacional ou local, realizada por oficiais do governo e empresários, com vista à exploração de oportunidades de negócios internacionais. Normalmente, os empresários têm oportunidade de contactar com outros empresários importantes, bem como com oficiais bem posicionados dos governos de outros países.

Se por um lado é consensual que a distância entre países e as elevadas taxas de impostos dos países de destino retraem o investimento, tendo os investidores preferência por países mais ricos, mais próximos geograficamente e com maior poder de compra. Por outro lado, o efeito da diplomacia económica nas exportações não tem sido muito analisado, tornando-se importante clarificar em que medida o investimento neste tipo de medidas incita o comércio (importações e exportações) e a internacionalização das empresas. 

Num estudo realizado para a Holanda, verificou-se que a diplomacia económica influência positivamente a entrada em novos mercados, desde que sejam países de rendas médias (medida em função do PIB), tendo um impacto não significativo em países de renda alta. Isto porque é nos países com rendas menos elevadas que se verificam mais barreiras à entrada, tendo nestes casos a diplomacia económica o importante papel de aproximar as nações, quer seja através de contratos, memorandos de entendimento ou cartas de intenção.
 
Num outro estudo realizado para o Canadá, concluiu-se que as missões comerciais ou diplomáticas têm um efeito ineficaz no aumento das relações comerciais, contrariamente ao que se poderia pensar.
Em Portugal, a diplomacia económica é ainda relativamente recente, apenas em 2004 e 2006 apareceu legislação que explica claramente modelos de “ação económica externa”, pelo que o modelo de diplomacia a seguir em Portugal, elaborado em meados de 2011 é ainda pouco conhecido.


Bibliografia:
Creusen, Horold; Lejour, Arjan (2012) “Market entry and economic diplomacy” Applied Economics Letters  
Head, Keith; Ries, John (2010) “Do trade missions increase trade” Canadian Journal of Economics

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

A importância da localização para a internacionalização das empresas


É recorrente ouvir-se notícias sobre a importância das exportações para a economia nacional. De facto as exportações constituem uma alternativa complementar ao já saturado mercado doméstico, além de que são essenciais ao equilíbrio da balança de pagamentos nacional que ano após anos se apresenta deficitária.

Os fatores que influenciam a propensão para as exportações das empresas têm sido amplamente debatidos, estando atualmente intrinsecamente relacionados com as características da empresa, nomeadamente a dimensão, a experiência, os recursos disponíveis ou a estratégia adotada.

Verifica-se que a dimensão da empresa influencia positivamente a propensão à exportação, contudo é o investimento em investigação e desenvolvimento e tecnologias de ponta que potência largamente o efeito positivo nas exportações.

Relativamente à estratégia a adotar, é importante realçar que, nem sempre exportar para muitos mercados significa um aumento das exportações, podendo mesmo obter-se efeitos inversos nos lucros como consequência de dificuldades organizacionais ou mesmo da distância, por exemplo. Note-se que a opção pela entrada em vários mercados com o objetivo de aumentar as exportações é uma estratégia meramente ao nível da empresa, não se verificando ao nível regional.

De facto outros fatores têm sido, mais recentemente, alvo de análise, nomeadamente a localização das empresas. Repare-se que a empresa ao estar inserida numa região com forte internacionalização potenciará as suas exportações individuais, independentemente da dimensão uma vez que beneficiará de um aumento da competitividade, proveniente da presença de uma rede de networking entre as empresas pertencentes ao mesmo setor na mesma região.

Note-se que este benefício é particularmente importante no caso das PME, já que as grandes empresas têm capacidade suficiente de desenvolver Know-how sem recorrer a este tipo de networking. Os fatores que mais potenciam as exportações das grandes empresas são o investimento em investigação e desenvolvimento e em tecnologias de ponta, ou seja, no caso das grandes empresas prevalecem as características individuais, podendo estas empresas ser bem-sucedidas mesmo que o contexto socioeconómico da região onde estão inseridas seja desfavorável. Quer isto dizer que pequenas e grandes empresas não estão expostas ao contexto socioeconómico da mesma forma.


Bibliografia:
Giovannetti, Giorgia; Ricchiuti, Giorgio; Velucchi, Margherita (2012) “Localization, internationalization and performance of firms in Italy: a multilevel approach” Applied Economics 

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Euro: Será que lhe damos a devida atenção? Descubra ainda o Tetris da Nota de 20 euros


As notas e moedas de euro entraram em circulação a 1 de janeiro de 2002, substituindo as então notas e moedas nacionais. Atualmente, as notas e moedas de euro circulam em 19 dos 28 Estados-Membros da União Europeia. Após 10 anos de circulação da primeira série de notas euro subordinado ao tema “épocas e estilos na Europa” foi decidido renovar o aspeto gráfico das notas e acomodar elementos de segurança novos e melhorados, pelo que em 2013 foi introduzida a primeira nota da segunda serie “Europa”: a nota de 5 euros. Com a introdução desta nova série, o Eurosistema "visa melhorar a integridade das notas de euro e permanecer na vanguarda face aos contrafatores".
Já se passaram 13 anos, mas é muito provável que algumas das particularidades do euro ainda passem despercebidas a muitos! Observando com atenção, cada nota tem um estilo arquitetónico, cor e dimensões diferentes, os pórticos, as janelas e as pontes não existem na realidade, mas têm significados distintos. Enquanto as janelas e os pórticos significam a abertura e cooperação da Europa, as pontes representam a ligação da Europa ao resto mundo.

Valor
Estilo arquitetónico
Cor
Dimensão (mm)
€5
Clássico
Cinzento
120x62
€10
Românico
Vermelho
127x67
€20
Gótico
Azul
133x72
€50
Renascentista
Cor de laranja
140x77
€100
Barroco e rococó
Verde
147x82
€200
Arquitetura em ferro e vidro do século XIX
Amarelo-torrado
153x82
€500
Arquitetura moderna do século XX
Púrpura
160x82

As notas de euro exibem, ainda, outras características como:
  • A assinatura de Willem F. Duisenberg, Jean-Claude Trichet ou Mario Draghi respetivamente, o primeiro, segundo e terceiro presidentes do Banco Central Europeu (BCE). Todas são igualmente válidas;
  • Um mapa da Europa;
  • Designação da moeda, “euro”, em Latim (EURO), Grego (EYPΩ) e Cirílico (EBPO);
  • As iniciais do Banco Central Europeu em nove variantes linguísticas: BCE ECB ЕЦБ EZB EKP EKT EKB BĊE EBC.
Não obstante, foram também pensadas características especificas de segurança que assentam no método “tocar, observar e inclinar”, as quais se enumeram se seguida:
  •  Marca de água - observando a nota contra a luz, torna-se visível uma imagem esbatida, que apresenta um retrato de Europa, os algarismos representativos do valor da nota e uma janela;
  •   Holograma - inclinando a nota, a banda prateada exibe o mesmo retrato da Europa que a marca de água, uma janela e os algarismos representativos do valor da nota;
  • Número esmeralda - inclinando a nota, o número esmeralda apresenta um efeito luminoso de movimento ascendente e descendente. Dependendo do ângulo de observação, o número também muda de cor, passando de verde-esmeralda a azul-escuro.
  • Impressão em relevo - tocando e deslizando os dedos pela frente da nota, sente-se, nas margens, uma série de pequenas linhas impressas em relevo. A tinta é também mais espessa no motivo principal, nas inscrições e nos algarismos de grande dimensão representativos do valor da nota.
  •  Filete de segurança - observando a nota contra a luz, o filete de segurança apresenta-se como uma linha escura, onde se pode ver, o símbolo do euro (€) e os algarismos correspondentes ao valor da nota.
O Eurosistema, que inclui o Banco Central Europeu (BCE) e os bancos centrais nacionais da área do euro, têm apostado, atualmente, na promoção da nova nota de 20 euros, embora ainda sem data prevista de introdução, como demonstra a ilustração a baixo.

Esta nova nota de 20 euros é a terceira da série “Europa” a ser introduzida e incluirá elementos de segurança melhorados, com destaque para a particular a inovadora “janela com retrato”.
Para uma melhor divulgação das características desta nova nota, o BCE lançou um jogo online, em antecipação ao lançamento da nova nota de 20 euros, que será apresentada no próximo dia 24 de Fevereiro. No jogo, consegue-se identificar alguns dos elementos de segurança da nova nota.
Pode descobrir o jogo e conhecer alguns dos elementos da nova nota antes da apresentação oficial veja http://game-20.new-euro-banknotes.eu/?slang=PT